Já era noite, ou ao menos, achava que era. Não fazia mais diferença, o ócio daquela vida - e que ela própria se condenou - tornava a passagem do tempo, inexistente. Talvez, não lhe importasse mais se era dia ou noite.
Às vezes, deitava-se ao chão na esperança de tornar-se mobília. Não acreditava que fosse algo impossível, afinal, o que é algo possível? Não ansiava ser um quadro nem um belo móvel, não queria ser notada, não possuía a vontade de ser protagonista ou figurante da sua vida, nem da de ninguém. Queria ser um nada, por isso um móvel velho e mal acabado, com traços grosseiros e semblante indiferente.
Passou a renegar o sentir e a todos os sentimentos que por tanto tempo prezara e achara sacros. Não lhe importava mais nada, o viver - para ela - se tornou algo trivial.
Mobília? Por que não? Não é uma má idéia - e de tanto pensar, parada, deitada ao chão, notou que aos poucos seus músculos começavam a se enrijecer...Ficaria feliz, se não tivesse aos poucos o seu próprio sentir, se esvaindo de si.
Sentia, ou melhor, não sentia que agora, pela primeira e última vez um pedido seu foi, por final, atendido.